Por Fabio "Sooner" Macedo

Virna Lisi - "O Carteiro"

(seu menino, 'cê me digue por favor)

O carteiro chegando com a carta
O carteiro tocou a campanhia
O cachorro foi para cima dele
O cachorro era o único que eu tinha
O carteiro com uma só pedrada
Acertou a cabeça do meu cão

(refrão 4x)
E o cachorro tá morto no jardim
E a carta nem era para mim

O carteiro é um adulto ignorante
O cachorro era só uma criança
Assassinada sem perdão
Mesmo antes de morrer, jurou vingança
A sua alma canina corre atrás
do carteiro por toda a vizinhança

(repete refrão 4x)

Para quem não conhece, o Virna Lisi era uma banda de hard rock (metal?) mineira cheia de pretensões. Suas canções frequentemente tinham referências a poesia e literatura, além de beber de fontes "abrasileiradas" como viola caipira, literatura de cordel e percussão de apoio. "O Carteiro" é um bom exemplo dos dois casos, com sua viola de fundo, recitação com cara de cancioneiro popular e letra adaptada de Pablo Neruda (ou era Fernando Pessoa?...).

Mas o que a gente faz com isso? Muita coisa. Repare no final da letra. Quantas instâncias lendárias de "cães do além" você conhece? E quantas delas se originam de coisas tão mundanas quanto... O assassinato de um cão por um carteiro perseguido? Com um verniz de novo Mundo das Trevas, pode-se tirar uma história interessante daqui. O princípio é, obviamente, imaginar o que fazer com um cão depois de morto - e que tipo de problemas macabros podem aparecer em uma vizinhança depois de um caso supostamente corriqueiro como este.

Temas possíveis
Climas possíveis
A Natureza do Problema
Personagens do Narrador
Sugestões de Conflitos e de Como Envolver os Jogadores
Resolução do Problema

Temas possíveis

Injustiça: Você pode enfatizar o caso de um carteiro se dar o direito de matar um animal, mesmo que em auto-defesa, e "perguntar" (por meio da história) às personagens dos jogadores o que acham disso - principalmente ao encararem as consequências "metafísicas" de tal ato.

Crueldade: Você também pode elevar as apostas um pouco mais, e tornar o assassinato do cão especialmente cruel. Troque a "pedrada" por "matou a pauladas" mesmo. Considere o que um ser humano estressado pelos constantes latidos poderia fazer: raptar o cão e matá-lo em um terreno baldio próximo, por exemplo. Enfatize a crueldade do ato criando alguns vizinhos (não todos) que apoiariam tal iniciativa, por qualquer motivo.

Tudo tem consequências: Esta também é uma ótima oportunidade para revelar às personagens dos jogadores que, no Mundo das Trevas, tudo tem consequências - em um mundo além do nosso, que por sua vez influencia o mundo físico de volta. Deixe-os paranóicos - será que algo ainda mais simples, como matar uma barata que seja, poderia redundar em uma epidemia fortalecida por aplicações de Numina ou algo do gênero?

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Climas possíveis

Indignação: Deixe a vizinhança em polvorosa. Faça-os criar um Grupo de Proteção do bairro e patrulhar as ruas. Ponha pessoas da rua perseguindo a carrocinha pela "crueldade" dos funcionários do Centro de Controle de Zoonoses. Deixe em aberto a possibilidade do cão ter sido morto por outro motivo (e então a revelação de que se tratou de um episódio relativamente mundano, um "acidente" com o carteiro, se torna ainda mais poderosa). Faça com que vizinhos tomem atitudes precipitadas, achando que encontraram o "matador de cães" da rua.

Paranóia: Boa parte das sugestões logo acima serve. Basta adicionar detalhes que deixem a trama um pouco mais complicada. Por exemplo, o dono do cão poderia ser um policial aposentado, que contata seus antigos colegas e, de repente, a rua é vigiada dia e noite sem a vizinhança ter sido avisada. Ou faça com que um dos vizinhos, alguém já com convicções espíritas/animistas, comece a deixar "oferendas" para o que ele chama de "espírito da vingança da natureza".

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A Natureza do Problema

Há múltiplas possibilidades. O cachorro morto pode simplesmente "retornar" para aterrorizar a vizinhança como uma espécie de zumbi; a morte do cachorro pode ter atraído/despertado um espírito-cão, que ganha Essência ao proteger seus alvos (embora esta "proteção" seja perigosa para o alvo, claro), ou um magath híbrido de cão com o conceito de crueldade ou vingança; qualquer um dos dois pode escolher possuir um cão comum (gerando um spirit-ridden) ou se manifestar fisicamente. Ou você pode usar a morte do cão "normal" como o estopim para o aparecimendo de um "cão do inferno" mesmo, vindo de algum outro reino que não a Shadow.

O importante aqui é manter o tema e o clima escolhidos, e adaptar detalhes dos NPCs para que hajam motivos para o cão protegê-los/perturbá-los/perseguí-los. Cada tipo de criatura acima sugere diferentes problemas. Um cão-zumbi, ou qualquer outro tipo de animal "físico" mas não-natural, vai chamar a atenção da vizinhança de uma maneira explícita. Talvez seja melhor limitar a atuação de tal ser. Por outro lado, um espírito-cão (ou o fantasma do cão morto) pode operar de maneira sutil porém com mais frequência, via Influências ou se ancorando a mortais crédulos e solitários.

Após isso, decida o que exatamente esta criatura-cão vai fazer. Ele vai proteger seu antigo dono com ainda mais ferocidade? E se ele resolver "defender" vizinhos aleatoriamente (por exemplo, para ganhar Essência), ou ainda melhor (pior?), apenas as crianças? E se o espírito-cão tiver Influência sobre Lares, e de alguma maneira impedir o seu antigo dono de sair de lá - ou qualquer um de sequer chegar perto? (Funciona especialmente bem se o dono for uma pessoa já naturalmente reclusa, que desperta a curiosidade/desconfiança dos vizinhos desde que para lá se mudou.) E se o "cão do inferno" simplesmente atacar pessoas à noite, ou tentar matar todos os outros cães da vizinhança?

Fontes de consulta sugeridas: Book of Spirits (WoD básico); Antagonistas (Wod básico); Mythologies (Vampire: the Requiem) e Predators (Werewolf: the Forsaken).

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Personagens do Narrador

O primeiro, e mais óbvio, é o dono do cão morto. Como dito antes, provavelmente a trama funciona melhor se o dono já era alguém "esquisitão", mas sem torná-lo ostensivamente perigoso. Um idoso rabugento, um militar aposentado, um escritor solteiro e recluso que precisa de sossego para trabalhar ou uma solteirona que se mete na vida dos outros são todos conceitos clássicos, beirando o clichê, mas que funcionam. Se você conseguir levar a trama com calma, poderá inclusive inserir algumas "pistas" enganosas aqui e ali para fazer os jogadores desconfiarem mais seriamente do dono - por exemplo, especular se ele é um serial killer ou um ocultista amador. Tudo é válido, desde que se tenha em mente que, nesta trama, o ponto central é a morte banal do cão; logo, resista à tentação de tornar o dono mais do que ele realmente é - uma pessoa comum que perdeu seu único companheiro por um motivo besta e cruel.

Depois, dê um pouco de atenção aos vizinhos. Pense em um bairro residencial clássico, cheio de casas alinhadas uma ao lado da outra. Se estiver se sentindo à vontade para tanto, escale ainda mais a estranheza e leve a história para um típico subúrbio americano (filmes como Beleza Americana ou séries de TV como Desperate Housewives devem servir de ponto de partida, tanto visual quanto para o tipo de vizinhança que se tem por lá). Garanta que a vizinhança vá se dividir em relação ao fato de alguma maneira, elaborando perguntas do tipo "sim ou não?" e "classificando" cada vizinho em um lado ou outro. Por exemplo, "você ficou feliz com a morte do cão?", "você acha que um carteiro tem direito de apedrejar um cão de guarda para cumprir sua tarefa?", "você acredita em espíritos?" e coisas do tipo. Assim, os vizinhos terão alguma motivação para se envolver, ajudando ou atrapalhando as "investigações" do caso.

Por último, precisamos de um carteiro. O que fazer com este cara depende muito do clima e do tema da sua história. A idéia é enfocar na injustiça ou em indignação? Torne o carteiro alguém já não muito querido pela comunidade, ou simplesmente um funcionário incompetente que por vezes extravia encomendas. A idéia é demonstrar que mesmo os acidentes mais inócuos têm suas consequências? Faça o carteiro ser alguém sorridente, conhecido na rua pela sua prestatividade, que apenas acordou em um dia ruim e teve uma idéia boba de espantar o cão com uma pedrada. Ou melhor ainda, inverta as expectativas acima de um pólo para outro.

Em qualquer caso, nenhuma destas personagens deve precisar de uma ficha completa; apenas anote as Paradas de Dados mais prováveis deles usarem. Considere, entretanto, como oficiais públicos (policias, veterinários do Centro de Controle de Zoonoses, membros de ONGs defensoras dos animais) podem se envolver na trama. Caso opte por algum destes, considere uma ficha completa, com a alta possibilidade destes serem os NPCs que irão confrontar os jogadores diretamente - ou descobrir quem anda xeretando na vizinhança atrás de um "suposto" espírito canino...

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Sugestões de Conflitos e de Como Envolver os Jogadores

Envolver os jogadores é relativamente fácil. Se suas personagens já tiveram contato com o oculto, podem ler sobre o caso em um tablóide do tipo "sangue e tripas". Se essa solução a la Supernatural (a série de TV) for muito batida pro seu gosto, simplesmente faça a coisa toda acontecer na rua de uma das personagens do jogador. Esta, além de ser uma solução simples, é a que melhor se encaixa se as personagens forem uma matilha de lobisomens. Há também outras soluções básicas possíveis: algum dos jogadores pode interpretar um policial, um ativista ecológico, um funcionário público... Ou pior ainda, para dar um twist macabro, ser o carteiro que matou o cão.

Conflitos possíveis incluem:

Melhor amigo das crianças: Após o cão ser morto e a fofoca se espalhar, uma criança da vizinhança começa a aparecer sozinha à noite, andando no meio da rua, despreocupada. Os pais não sabem como o garoto consegue passar pelo portão fechado; eles não conseguem ver o "amigo invisível canino". Até que, uma noite, o garoto(a) chega em casa coberto de sangue - de outrem.

Vizinho enxerido: alguma dona de casa fuxiqueira, ou um adolescente sem ter mais o que fazer, entra no quintal do dono do cão um dia ou dois após o caso... E jura ter sido "posto pra correr" por um cachorro negro, com a testa aberta, que deixava um rastro de grama queimada e forte cheiro de enxofre. Mais uns poucos dias e... O corpo do(a) enxerido(a) é encontrado, mutilado e já em processo de decomposição, parcialmente enterrado em seu quintal - e sem o osso do fêmur.

Atraso na entrega: um dos jogadores está esperando alguma encomenda importante pelos Correios - um documento, o cheque do seguro-desemprego, um componente químico importante pros seus experimentos, ou parafernália de ocultista amador - quando a morte do cão acontece. Nos dias seguintes, a encomenda atrasa. Ao entrar em contato com a agência postal mais próxima, a personagem descobre que, segundo os registros, sua encomenda chegara, mas nenhum carteiro aceita mais fazer entregas na rua, mesmo sob risco de demissão. Uma averiguada entre os vizinhos revela mais um ou dois com o mesmo problema. Para piorar, a encomenda do jogador foi entregue a um carteiro que sumiu há dias - mais precisamente, no dia da morte do cão.

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Resolução do Problema

Aqui depende muito de quanto peso você quer dar à história. Se "O Carteiro" for uma subtrama para entreter os jogadores entre assuntos mais sérios, use as resoluções simples e básicas: um espírito ou fantasma pode ser exorcisado ou banido com as ferramentas apropriadas (cantos, orações, símbolos de proteção nos limites da área atingida). O trabalho dos jogadores é descobrir a natureza da criatura e o que funciona contra ela, além dos limites de sua atuação (provavelmente delineados a partir das "âncoras" da criatura no mundo físico).

Outra solução básica para Narradores de Werewolf: the Forsaken é considerar um ban para o espírito-cão (ou o magath de cão com outro espírito conceitual). Talvez o espírito esteja impedido de proteger alguém que o maltrate - e o dono precise ser convencido da existência de espíritos em primeiro lugar. Ou personagens espertos podem invocar outros espíritos para confrontar e expulsar o magath da região... Por algo em troca. Claro, se as personagens são lobisomens, sempre se pode deixá-los simplesmente entrar na shadow e descorporar o espírito "na mão" mesmo. Neste caso, o desafio passa a ser encontrá-lo.

Se quiser pôr esta história à frente na sua crônica, respire fundo e tome os caminhos mais difíceis e moralmente questionáveis. Talvez o espírito-cão (ou o cão-zumbi) esteja causando problemas enquanto "caça" o carteiro que matou o cão original. Neste caso, o espírito só vai partir para outras plagas ao ver o carteiro sofrer pelo que fez. Talvez os jogadores tenham que considerar uma surra no carteiro... Ou o espírito, indo ainda mais longe, exige olho por olho, dente por dente.

Neste caso, é bom deixar a mente aberta para quaisquer estratagemas que os jogadores possam conseguir inventar para despistar o espírito-cão - "falsificar" um corpo, combinar com o carteiro uma surra encenada, convencer o cão de que o carteiro fugiu para bem longe e que não está mais no bairro. De qualquer maneira, tome cuidado para não tornar o assassinato (ou mesmo a surra) do carteiro como a única real saída; tal solução vai frustrar jogadores cuja personagem não seria capaz de tal ato. Por mais que o Mundo das Trevas não seja um lugar bonito, não precisa forçar a barra e obrigar personagens a perder Moralidade. Já fazê-los suar por um tempo, tentando achar uma saída mais nobre para o problema, são outros quinhentos e faz parte ;-)

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Virna Lisi - O que diriam os vizinhos? (1995)

"O Carteiro":
faixa número 7

Autores:
J. B. Bresson / Virna Lisi
(letra inspirada em poesia de Pablo Neruda)


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